#Coluna - Momento Agridoce - Minha Vida, por Silas Corrêa Leite

Olá queridos leitores!





MINHA VIDA

Arrasto - me como uma âncora por cima do chão do mundo.
Tudo o que não preciso fica agarrado a mim.
Indignação cansada, resignação impetuosa.
Os lacaios apanham pedras, Deus escreve na areia.
Aposentos silenciosos.
Os móveis estão ao luar, prontos para levantar voo.
Suavemente entro em mim
através de um bosque de armaduras vazias.

(Tomas Tranströmer, Pósludio, tradução Luís Costa)



Eu vou ter que passar minha vida
Sorrindo, cantando, escrevendo poemas, fazendo malabares nos faróis das trilhas
Mas fazendo que as pessoas que eu amo tenham pão, mel, e alegranças, risadorias
Mesmo que eu tenha que passar fome, dormir na rua, escrever no escuro
As pessoas que eu amo têm que ser providas, essa é a minha sina
Independente de minha fé, religião, culpa ou destino
Para eu evoluir. E ser considerado uma pessoa, um ser humano...


Tenho que ser vencedor a todo custo.
Haja o que houver. Custe o que custar.
Tenho uma dívida com a família, amigos – talvez com a humanidade inteirinha
O suor, o sangue, o trabalho – Tudo tenho que dar tudo de mim, de me ser
Mesmo que eu tenha que ser marcado, eu só não posso morrer
Tenho que pagar minha pena de existir, prover, cuidar...
Desde o garçom da santa ceia, até esse destino
Para ser alguém, dar testemunho além de minha “dorpoesia”


Tenho que não mais perder pra mim
Porque o pão que eu fui buscar um dia e morri buscando
E os que amei morreram de fome – nunca mais, nunca mais! - escolhi ser
De novo o provedor. Ir atrás e quase morrer, mas não morrer dessa vez
E dar minha cota, meu preço; pagar para poder evoluir e ser
No futural do devir aquele que finalmente então virá só para colher
E então ser filho dos que me amaram e eu os resgatei


Eu vou ter que passar minha vida
Vivendo para os outros; muito além mesmo de me ser e de me posicionar
E todos comerão do pão feito de minhas lágrimas, sangue, suor. E o palhaço
Bobo da corte fará com que todos riam. E meus poemas como esconderijos
Para quando eu morrer e no céu um dia, dizer, Pai, Mãe
Eu vos entrego o meu espírito, a minha alma
E meus pais serão meus filhos para sempre, para sempre...
..............................................................................................
Quem olha meus olhos, minha correria louca
Não sabe nada de mim. E eu continuarei a cavar meu céu, na terra
Até a carcaça ser recolhida para ser reciclada como uma lâmpada
E meus irmãos serem os meus pais e eu poder dizer

Parece que os conheci; e plantei-os em outras vidas
Minha vida. Como se uma luz de novo treinando para ser luz
E evoluir. E nunca mais sofrer a cruz de ter existido.

Silas Correa Leite
(Poema da Série “Éramos Blues”) 





















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